O creep-feeding é uma estratégia nutricional amplamente utilizada na pecuária de corte com o objetivo de acelerar o desempenho dos bezerros ainda em fase de aleitamento. Ao permitir o acesso exclusivo dos bezerros a uma suplementação concentrada, essa prática atua diretamente no ganho de peso pré-desmama e na padronização do lote.
Mas, na prática, quando essa estratégia realmente compensa? E como implementá-la corretamente para garantir retorno?
O que é o creep-feeding e qual seu objetivo
O creep-feeding consiste no fornecimento de ração concentrada em estruturas que impedem o acesso das vacas, permitindo que apenas os bezerros consumam o suplemento.
Do ponto de vista prático, essa estratégia busca complementar a nutrição fornecida pelo leite materno e pela pastagem, gerando um alívio para a vaca que poderá voltar a ciclar mais rápido. Outro diferencial é a padronização do lote, pois com essa técnica reduz a diferença de aleitamento entre vacas boas de leite, vacas ruins e vacas de primeira cria.
A produção de leite das vacas de corte tende a cair a partir dos 60 a 90 dias de lactação. Paralelamente, a exigência nutricional dos bezerros aumenta com o crescimento. Esse descompasso é um dos principais pontos em que o creep-feeding se torna uma ferramenta estratégica.
Quando o creep-feeding vale a pena
A viabilidade do creep-feeding está diretamente relacionada ao sistema de produção e à disponibilidade de nutrientes via pastagem e leite. Em sistemas onde há limitação de oferta ou qualidade de forragem, o retorno tende a ser mais expressivo.
Situações típicas onde a prática se mostra eficiente:
- Períodos de seca ou transição de águas
- Pastagens com baixa qualidade proteica e energética
- Sistemas que buscam maior peso à desmama ou abate precoce
Machos: Ganho adicional médio de 200 gramas/dia, podendo chegar a um GMD total de 1,029 kg/dia.Fêmeas: Ganho adicional médio de 100 gramas/dia, com GMD total em torno de 0,901 kg/dia.
Como estruturar um programa de creep-feeding
Para que o creep-feeding seja eficiente, não basta apenas fornecer ração. É necessário ajustar formulação, consumo e manejo.
Formulação da dieta
Farelo de trigo, farelo de soja e milho podem ser amplamente usados na ração creep. Alimentos mais volumosos como polpa cítrica e feno de alfafa moído ou peletizado podem reduzir riscos de problemas digestivos, entretanto o custo do último pode inviabilizar o processo. Contudo, em condições brasileiras, o milho predomina como fonte energética.
Pontos-chave:
- Proteína bruta entre 18% e 20%
- Boa disponibilidade energética (uso de milho, sorgo, subprodutos energéticos)
- Inclusão de fontes proteicas de qualidade, como farelos vegetais
- Suplementação mineral adequada, com atenção ao cálcio e fósforo
- Uso de aditivos pode ser interessante para melhorar eficiência alimentar
Consumo esperado
O consumo varia normalmente entre 0,5% e 1,0% do peso vivo do bezerro, podendo chegar a 1,5% em sistemas mais intensivos.
Controle de consumo é fundamental para evitar desperdícios e garantir viabilidade econômica.
Adaptação dos bezerros
A adaptação deve ser gradual, estimulando o consumo desde cedo. O fornecimento pode iniciar com 60 dias de idade, período em que o bezerro começa a explorar alimentos sólidos.
Estrutura do creep
O cocho deve permitir fácil acesso aos bezerros e impedir a entrada das vacas. Além disso:
- Deve estar localizado em área de fácil acesso e sombra
- Precisa ser mantido limpo e com oferta constante de ração fresca
- Evitar competição excessiva
Impactos produtivos e econômicos
O principal benefício do creep-feeding é o aumento do peso à desmama, mas ele também traz outros efeitos importantes:
- Melhora no escore corporal dos bezerros
- Redução do estresse na desmama
- Potencial antecipação da idade ao abate
- Possível melhoria na taxa de prenhez das vacas, devido à menor exigência de produção de leite
Do ponto de vista econômico, o custo da suplementação deve ser comparado ao valor do quilo adicional produzido. Em cenários de arroba valorizada, a prática tende a apresentar melhor retorno.
Pontos de atenção
Apesar das vantagens, o creep-feeding precisa ser bem planejado. Alguns erros comuns incluem:
- Fornecimento em excesso, elevado custo sem retorno proporcional
- Dietas desbalanceadas, comprometendo desempenho
- Falta de controle de consumo
- Uso da estratégia em sistemas onde a pastagem já atende plenamente às exigências
Outro ponto importante é evitar níveis excessivos de energia que possam levar a deposição precoce de gordura, especialmente em sistemas que visam recria a pasto.
Vale a pena investir em creep-feeding?
A resposta depende do objetivo produtivo e das condições do sistema. Em cenários de limitação nutricional ou busca por maior eficiência produtiva, o creep-feeding se mostra uma ferramenta altamente eficiente.
Quando bem manejado, ele não apenas aumenta o peso à desmama, mas melhora a eficiência global do sistema de cria, impactando positivamente toda a cadeia produtiva.
*NRC – National Research Council. Nutrient Requirements of Beef Cattle. 8ª ed. Washington, DC: National Academies Press, 2016.
*EMBRAPA. Creep-feeding para bezerros de corte. Diversos boletins técnicos e publicações sobre suplementação em fase de cria.
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