O período de desmame representa uma das maiores transições na vida dos leitões. Em poucos dias, eles deixam de receber o leite materno, passam a consumir exclusivamente ração sólida, são separados da matriz, misturados com animais de outras leitegadas e alojados em um ambiente completamente novo. Essas mudanças ocorrem simultaneamente e desencadeiam intenso estresse fisiológico e comportamental.
Quando o manejo não é adequado, as consequências aparecem rapidamente, tais como: redução do consumo de alimento, perda de peso, diarreia pós-desmame, maior susceptibilidade a doenças e pior conversão alimentar. Por outro lado, estratégias bem planejadas reduzem os impactos dessa fase e favorecem um desenvolvimento mais uniforme até o abate.
Por que o desmame é uma fase tão desafiadora?
O leitão ainda apresenta um sistema digestivo e imunológico em desenvolvimento. Durante a lactação, sua principal fonte nutricional é o leite da porca, altamente digestível e rico em fatores imunológicos.
Após o desmame, ocorre uma mudança brusca para ingredientes de origem vegetal, exigindo maior produção de enzimas digestivas e adaptação da microbiota intestinal. Ao mesmo tempo, o animal precisa aprender rapidamente onde estão os comedouros e bebedouros, estabelecer uma nova hierarquia social e adaptar-se ao novo ambiente.
Todo esse processo favorece a liberação de cortisol, conhecido como hormônio do estresse, que pode reduzir o consumo voluntário de alimento, provocar atrofia das vilosidades intestinais e comprometer a absorção de nutrientes, aumentando o risco de diarreias e queda no desempenho produtivo.
Principais fatores que influenciam o desempenho pós-desmame
Alimentação
A nutrição exerce papel decisivo nessa fase. O objetivo é estimular o consumo de ração o mais cedo possível, reduzindo o período de jejum após o desmame. Entre as principais recomendações estão:
- fornecer dietas altamente digestíveis;
- utilizar ingredientes de elevada qualidade nutricional;
- garantir excelente palatabilidade da ração;
- disponibilizar alimento fresco diversas vezes ao dia;
- facilitar o acesso aos comedouros.
Uma prática bastante utilizada é o creep feeding durante a maternidade, permitindo que os leitões tenham contato com a ração antes do desmame. Essa adaptação reduz o impacto da mudança alimentar e favorece maior consumo nos primeiros dias da creche.
Consumo de água
Frequentemente subestimada, a água é um dos nutrientes mais importantes no período pós-desmame. Leitões que encontram facilmente os bebedouros retomam mais rapidamente o consumo de alimento. Por isso, é fundamental garantir:
- água limpa e de boa qualidade;
- vazão adequada dos bebedouros;
- fácil acesso para todos os animais.
A redução da ingestão de água está diretamente relacionada ao menor consumo de ração e ao aumento da incidência de problemas digestivos.
Ambiente confortável
As instalações influenciam diretamente o comportamento dos leitões. Um ambiente adequado deve proporcionar:
- temperatura compatível com a idade dos animais;
- boa ventilação, sem correntes de ar;
- cama ou piso seco;
- conforto térmico;
- espaço suficiente para descanso e alimentação.
Quando o ambiente oferece conforto, os animais gastam menos energia para manter a temperatura corporal e direcionam mais nutrientes para o crescimento.
Formação dos lotes
Sempre que possível, recomenda-se formar grupos homogêneos em peso e idade, reduzindo disputas e competição por alimento. Além disso, minimizar a mistura excessiva entre leitegadas ajuda a diminuir comportamentos agressivos e reduz o estresse social logo após o desmame.
Sanidade e biosseguridade
O período pós-desmame coincide com uma queda gradual da imunidade passiva adquirida pelo colostro. Por isso, programas sanitários bem estruturados, limpeza adequada das instalações, controle de agentes patogênicos e protocolos de biosseguridade tornam-se ainda mais importantes para evitar surtos de doenças entéricas e respiratórias. A prevenção continua sendo mais eficiente e econômica do que o tratamento.
A importância da saúde intestinal
Grande parte das perdas de desempenho após o desmame está relacionada ao comprometimento da integridade intestinal. O estresse favorece alterações na microbiota, redução da altura das vilosidades intestinais e aumento da permeabilidade da mucosa, prejudicando a digestão e a absorção dos nutrientes. Dessa forma, estratégias nutricionais que favoreçam a saúde intestinal contribuem para:
- maior consumo de ração;
- melhor digestibilidade dos nutrientes;
- redução de diarreias;
- maior ganho de peso diário;
- melhor conversão alimentar.
Esses fatores refletem diretamente na eficiência econômica da produção.
O manejo começa antes do desmame
Os melhores resultados não dependem apenas do manejo realizado na creche. Leitões provenientes de matrizes bem nutridas, saudáveis e com boa produção de leite chegam ao desmame mais pesados, mais resistentes e com maior capacidade de adaptação.
Da mesma forma, práticas como o fornecimento adequado de colostro, controle da ambiência na maternidade e introdução gradual da alimentação sólida contribuem para reduzir os desafios da fase seguinte.
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